quinta-feira, 16 de maio de 2013
Síndrome de Bertoleza
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
O sonho da independência
sábado, 5 de maio de 2012
Duo Evandro & Moreira para concerto em Ponto de Cém Réis
Negro, de cabelos cacheados, sem camisa, com um falso cordão de ouro pendurado no magro peito, Evandro sente o Ponto de Cém Réis girar. Onde estão as árvores? As pedras portuguesas? O mármore do chão? Só resta impávido o antigo hotel e um encimentado gigante, vazio.
A noite vem chegando de mansinho e as luzes dão novas cores ao Ponto de Cém Réis. Um azul claro do céu vai fugindo e o amarelo dos postes de iluminação banham de um falso ouro a estátua do compositor Livardo Alves.
O caminhão na verdade é um palco de um projeto do famoso pianista Arthur Moreira Lima, patrocinado pelo Governo Federal a fim de levar aos lugares mais diferentes do país a boa música e a cultura. De repente, como se uma grande baleia encalhada, o caminhão tem sua carroceria aberta e, dentro dela, surge um piano iluminado por holofotes. Aproxima-se uma equipe de televisão para entrevistar o velho senhor de cabelos cumpridos, que se senta num banquinho ao lado do instrumento. Os fiéis também já começam a se chegar para obter os melhores lugares, próximo do piano, como se buscassem salvação. Observam o repórter fazer uma rápida entrevista, ao vivo, para uma televisão local. Bêbado, delirando, Evandro fecha o punho direito, simulando estar segurando também um microfone também. Resolve se sentar ao lado das outras pessoas, no meio das cadeiras plásticas. Os olhares parecem fuzilá-lo, por estar bêbado e sem camisa ali. Ninguém sabe de seu sofrimento, de sua decepção amorosa. Triste, talvez apele para o pastor que já está ali, junto ao piano.
A apresentação começa. Arthur Moreira Lima parece apressado. Toca duas peças clássicas, uma de Mozart e outra de Bach. Evandro não entende porque o pastor não fala nada. Resolve gritar para expressar seus sentimentos. É atingido por uma saraivada de olhares preconceituosos. Um senhor mais incomodado levanta-se da cadeira e diz que Evandro não pode estar ali, que vai chamar a segurança ou a produção. Algumas mulheres saem de perto de Evandro, temendo o conflito que já se desenha. Ao redor do homem bêbado e sem camisa surge um grande espaço, separando ele dos demais. Isolado, Evandro parece se chatear mais ainda.
Os dedos de Moreira Lima percorrem as teclas do piano com uma rapidez formidável. Os sons se misturam ao silêncio impossível da cidade. Catadores de lixo remexem o rescaldo do fim de expediente do centro, entre papelão, vidro e latinhas de cerveja. Comerciários sentados em banquinhos plásticos degustam o churrasco, do outro lado, na Praça 1817. O falso edifício das Nações Unidas parece dormir. Com saudosismo, algumas pessoas mais velhas se lembram que do lado ali pertinho tinha o Cinema Municipal, transformado hoje numa loja de calçados.
Motos em arrancadas bruscas irrompem uma nova harmonia ao concerto. Concentrado, Moreira Lima parece viver apenas para o piano. Quando começa a tocar o trenzinho caipira de Heitor Villa Lobos, o público se remexe na cadeira, como se fosse embarcar na viagem imaginária. Evandro também se agita e grita:
Pastooooor!!!!!!!
Xiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!! Sussurram alguns incomodados. Moreira Lima começa a tocar Odeon, de Ernesto Nazareth. Evandro parece gostar também, se agitando mais e mais. O conflito que deveria ocorrer logo nas primeiras músicas vai se desenhando quando chega um membro da produção de Moreira Lima e identifica quem estava perturbando a paz dos silenciosos ouvintes. Olhares volta-se agora para a reação de Evandro. Baixinho, o homem da produção fala com uma voz severa:
-Fica aí quetinho!!!! Sem dar um pio, viu?!
A plateia parece se preparar para um conflito, uma luta corporal entre Evandro e os homens da segurança. O membro da produção maneja um telefone celular pedindo reforços. O público fica mais tenso ainda, prevendo que Evandro vai dar trabalho para ser retirado dali. Moreira Lima toca nas teclas agudas “Apanhei-te cavaquinho”.
Esse cara não sabe tocar!!!- berra Evandro
Xiiiiiiiiiiii
O outro homem da segurança se aproxima. Agora parece certo que Evandro vai ser retirado do projeto que leva um piano pela estrada, com quase dez anos de existência. Moreira Lima ignora tudo, pega o microfone e diz:
Agora vou tocar Asa Branca!
Tocado em sua sensibilidade, Evandro parece em suspenso, acalma-se repentinamente. Aquela é a única música que o bêbado conhece do repertório. E, contrariando a expectativa geral da plateia, o forte segurança da produção de Moreira Lima, senta-se ao lado dele. Ao invés de força, distrai Evandro e pergunta porque está tão triste naquela noite.
- É muito amor que eu tenho pra dar, rapaz! Mas mesmo assim ela me deixou....
Como se fossem irmãos que não se viam há muito tempo, conversam abraçados por muito tempo, numa cumplicidade sem tamanho. Moreira Lima avisa que todas as pessoas da plateia que irá executar a Grande Fantasia Triunfal do sobre o Hino Nacional Brasileiro. Pede como se ordenasse que todos fiquem de pé. O segurança aconselha Evandro a seguir os demais.
- Deixa essa cara pra lá!! Escuta a minha história bicho!!
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Nobres piratas

No quarto filme “Piratas do Caribe” conjuntamente reis e mercenários partem em busca de uma mítica fonte da juventude. Sem que isso faça sentido, os momentos iniciais do filme me fizeram lembrar a coleção de livros que nunca tive os chamados tesouros da juventude. Mas também, a película me faz recordar prazerozamente do livro “A ilha perdida”, um dos primeiros livros que possuí, da coleção Vagalume, da Editora Ática.
No filme estrelado por Johnny Depp inaugura um novo ciclo inspirado no desejo (de juventude, de prazer e de riqueza) e simbolizado por uma poética da água doce. Se nas aventuras anteriores o mundo era metaforizado pelas feras marinhas, em “Piratas do Caribe- navegando em águas misteriosas” o desejo vem codificado em forma de mulher, ou melhor, em forma de sereia. Devoradoras, elas se aproximam e hibridizam num só golpe desejo e morte, como deve ser tanto na psicanálise ou na própria mitologia. A sereia e o missionário religioso, um amor impossível. Um desejo que se realiza nas águas mortas, nas águas paradas e profundas, na mitologia de Iara, para deles extrair a água salgada da lágrima de dor e interdição. Pureza e perigo, um simples desejo, um homem e uma mulher.
Divididos não só por bandeiras e escudos, espanhóis e ingleses estão separados pela interpretação de um único livro, a Bíblia. O que os une é o desejo de conquista do mundo. A vida eterna proporcionada pela fonte da juventude funde-se com a busca de salvação da alma do cristianismo.
Todas as expedições partem de Londres, mítico e antigo “centro do mundo”. O desejo colonial não tem limites. E o projeto real também não passa de uma devoração do planeta no qual os ingleses se afogam nos seus próprios desejos de poder. Tragados, entorpecidos, enfurecidos sedentos do sol tropical, os conquistadores se despojam da ética protestante ou das culpas católicas para deliciarem-se com os sabores da colônia, da periferia.
O projeto colonial ou de conquista despe-se assim de todos os propósitos religiosos, salvacionistas ou humanitários. A ganância os une e os separa. A figura do pirata Barbossa é emblemática. Cooptado pela coroa britânica para buscar a fonte da juventude, veste-se grotescamente como nobre e comporta-se como pirata. Ambíguo, ele denuncia a própria condição pirata de todos os impérios.
Enquanto isso, o personagem Jack Sparrow interpretado genialmente por Johnny Depp parece chaplinianamente caminhar pelas margens da narrativa, mas paradoxalmente ocupa seu centro. É um vagabundo genial que filosofa a cada passo pelos caminhos contemporâneos do cinema hollywoodiano.
Catar feijão

Curvada, com uma vassoura de palha numa das mãos, Dona Tereza junta às sementes dos mais diferentes tipos de feijão. Dona Tereza vive de catar os grãos que escapam dos minúsculos buracos das sacas que sobem e descem tangidas pela força bruta dos homens mulas, os cabeceiros da Feira Central de Campina Grande.
Parece não ter direito a falar nada. O seu silêncio humilde me oprime. Dona Tereza Cabral parece um animal, um gato ou cachorro velho, que de tanto ser maltratado na rua, tem medo de encarar os humanos ou viver no mundo deles.
Vive ao rés do chão, numa tarefa infinita de sobreviver, eternamente curvada. Parece enterrada na sua própria tristeza e condição. Dona Tereza Cabral sabe que as sementes não germinarão no asfalto encardido do mercado. Tal como os grãos perdidos, Dona Tereza quer escapar de todo jeito. Tímida, ensimesmada, ela me diz que vem catar feijão do chão quando a saúde deixa.
Guardados pelas mãos enrugadas da mulher num pequeno saco plástico os grãos se misturam num triste carnaval de cores. Macassar, mulatinho, sempre verde, preto ou até mesmo as gordas favas. Completa-se assim o estranho ciclo do feijão perdido. Saídas do caminhão do atravessador, descarregadas pelos cabeceiros para os donos dos armazéns, as sacas sempre deixam escapar alguma coisa. E o que cai ao chão é varrido pela necessidade absoluta de Dona Tereza Cabral. É no duro chão que a velha me ensina que no Brasil quase gigante potência mundial tem muita gente passando a mais vergonhosa das fomes.
A pedra de Feijão é um entroncamento nervoso da Feira Central onde cada pedaço é disputado por pedintes, caminhões, cabeceiros, ladrões e feirantes. Penso que esse eterno movimento de carga e descarga de grãos parece encobrir as desigualdades. Gatos quisilentos se espreguiçam em baixo dos bancos. Bêbados tomam uma burrinha de cana dividindo um caroço de umbu verde entre os dedos. E o amargo da vida ou o azedo do dia vai sendo amenizado, escapando pelas margens, escorrendo como um esgoto do lugar.
Chapeados se aglomeram perto de um caminhão. Alguns dizem que os donos dos armazens não sabem o que é carregar peso. Josafá, 30 anos de feira, saiu de Alagoa Nova disposto a nunca mais voltar. Carrega o peso do lugar nas costas. Diz que sabe fazer rede de pescar, que foi pintor de paredes e pedreiro. Não sabe até quando vai ter força para sobreviver por ali. Uma saca de 90 quilos na cabeça cheia de feijão, alguns grãos caem no chão para dona Tereza. O que aparece tô carregando... só não carrego esse saco pra minha casa porque é crime.
sexta-feira, 23 de julho de 2010

Os operários chegaram em silêncio, de mansinho, como numa operação de guerra. E em pouco tempo aplicaram ao redor da Praça Antônio Pessoa um enorme muro formado com placas de zinco, separando os freqüentadores da sombra das árvores ou mesmo dos bancos. Não se sabe quando se iniciará a obra nem mesmo quais os novos planos para o lugar.
O que se sabe é que muitos jovens que freqüentam a praça sequer estão interessados em conhecer quem foi aquele homem que está o tempo todo ali ao centro, imobilizado na eternidade metálica do bronze num pedestal antigo. É que há muito tempo a Praça Antônio Pessoa não tem mais esse nome, é conhecida na gíria hoje como Praça da Morgação. Os desatentos antropólogos ou sociólogos da academia deveriam estar interessados em saber os rumos da juventude e assim poderiam empreender uma pesquisa de campo na chamada Praça da Morgação. Francisco Fernandes com o seu “Dicionário de Sinônimos e Antônimos da Língua Portuguesa” pouco me ajudou a entender o tal sentido da palavra uma vez que atestou que “morgado” é farto, abundante e rico.
O livro “Memorial Urbano de Campina Grande” lançado em 1996 mostra uma foto antiga do lugar e também informa que ele é o segundo mais velho logradouro público da cidade, construído na administração de Verguiniaud Wanderley para homenagear o coronel e irmão de Epitácio Pessoa. Antônio que chegou ao poder por conta da renúncia de Castro Pinto permaneceu no cargo por quase um ano, renunciando em seguida, morgado por uma enfermidade. O drama político de Antônio Pessoa nos faz pensar no contexto eleitoral de hoje, no qual paradoxalmente a preocupação maior das legendas e dos estrategistas é com a figura do vice.
O lugar ganhou o título de Praça da Morgação por não acontecer nada de diferente ao correr dos dias, na visão dos jovens. No entanto, com a instalação de um cursinho preparatório para o vestibular as coisas mudaram. Carrinhos de som a todo o volume desfilando os sucessos do momento, churrasquinhos esfumaçando, defumando tudo e todos. De morgada só no nome, a praça ferve de quinta a sexta-feira como uma festa ao ar livre, numa eterna balada a misturar estilos e atitudes da juventude campinense.
Nem mesmo os tapumes municipais agora cercando o lugar puderam morgar os freqüentadores da Praça Antônio Pessoa. Espremidos, encurralados nos espaços que sobraram ao longo da rua, eles improvisam uma conversa sobre o vídeo mais louco do momento no “You Tube” ou mesmo sobre a banda de rock mais irada. Degustam churrasquinhos numa conversa animada sobre dificuldades de escolher o curso para o vestibular, enquanto a estátua do vice estadista cercada como um líder vencido no seu “bunker” sente saudades do burburinho dos anos de ouro da Praça da Morgação.
Neste final de semestre fui convidado para compor a banca examinadora do vídeo documentário “Cheiros e Cores da Feira”, dos jovens formandos Allan Cleyton e João Matias, ambos do Curso de Comunicação Social (Jornalismo) da UEPB, orientandos do nosso Rômulo Azevedo. Trata-se de um vídeo de cerca de dez minutos nos leva a passear como turistas ingênuos pela Feira Central, esse patrimônio da cultura paraibana. Nestes tempos de modernização dos espaços públicos, o documentário da dupla já parece ser um registro importante do estado do lugar.
O escritor Lima Barreto em seu “Feiras e mafuás” nos dá conta das ambigüidades deste antigo lugar e modo de comércio, circulação de pessoas e mercadorias, que representa ao mesmo tempo nossa riqueza e contradições do espaço urbano. Ou seja, a feira é uma síntese do que nos somos, um manifesto vivo e pulsante de nossas limitações e possibilidades. Bem disse o cronista paraibano Gonzaga Rodrigues recentemente que a cidade nasceu com a feira. E ao redor da feira se fez grande, Campina. Passear pela feira é uma aventura antropológica. Basta lembrar as fotos produzidas por um Roberto Coura tempos atrás. E assim que deve ser encarada a empreitada, como uma atividade didática nas áreas de jornalismo e antropologia. Foi com essa perspectiva que aconteceu também no primeiro semestre um dia de campo na Feira Central com os estudantes que compõem nosso Grupo de Pesquisa em Jornalismo e Literatura da UEPB, UFCG e UFPB.
Eu que acreditava estar de “férias” longe dos mercados, fui convidado pelos amigos Júnior e Eripetson para “mussarrar” na Feira de Patos. Estranhei logo de saída o curioso nome e eles me explicaram que “mussarrar” é passear numa feira perguntando o preço de tudo, do mais caro ao mais ordinário item, sem ao menos comprar sequer um friso, para agonia dos comerciantes e vendedores.
Confesso que o termo “mussarrar” ficou ecoando na minha cabeça, como se fosse possível prever uma etimologia árabe antiga. Recorri aos dicionários e ao mundo virtual, mas nada. Nada de aparecer o termo mussarrar. O que consegui foi pouco e incerto e está situado na Índia antiga. Dizem que nas origens do povo Musahar é contada numa lenda que o deus hindu da criação deu aos homens um cavalo de passeio. E o primeiro Musahar decidiu cavar buracos na barriga do bicho para fixar melhor os pés enquanto cavalgava. Ofendido, o deus castigou os Musahar e os fez apanhadores de ratos. Hoje eles ocupam as regiões norte e sul da Índia. Abandonaram a ocupação de capturar ratos e se dedicam ao cultivo agrícola, como trabalhadores alugados. No entanto, ficou a marginalização grudada ao nome na Índia, uma vez que nada possuírem a não ser o próprio corpo. Entre a riqueza do cavalo dos deuses e a vida miserável e mundana do rato, somos todos mussarralés habitantes de cidades, shoppings, feiras e atacadões.
Estranhos objetos
Não me lembro bem, mas o primeiro contato com o estranho objeto foi na casa de minha mãe, em João Pessoa. Tinha sido presenteado por uma caridosa vizinha, que tinha comprado dois e fez um gesto de gentileza ao doar um exemplar de tão esquisita coisa. A minha mãe adorou o aparelho, todos fabricados em cores berrantes, provavelmente na China, lugar em que se faz tudo que é consumido no mundo de hoje.
No entanto, a estranha máquina futurista não funcionava sem estar carregada. No cabo, embutido, saia um par de chifres metálicos que mesmo sem fios poderia ser conectado em qualquer tomada da rede elétrica. Um infernal e minúsculo led vermelho avisava que a máquina fatal estava sendo alimentada, como se engolisse o veneno vindo da parede. Assim, a estréia de tão útil maquinário foi adiada para o sábado, numa propícia manhã de sol.
Carregada, ela era um perigoso objeto que não deveria cair em mãos despreparadas ou inábeis como as das crianças. A estranha máquina deveria ser empunhada e seu mecanismo deveria ser acionado quando da mínima proximidade das vítimas. Confesso que experimentei a sensação ligar a máquina, empunhá-la como um soldado americano e direcioná-la para algum inseto intrometido e zaaaz!! Jazia eletrocutado um maribondo perigoso. Ele não morreu logo da descarga elétrica, agonizante a criatura atingida pela crueldade moderna da raquete elétrica para insetos olhava para mim. O arrependimento foi instantâneo e desproporcional ao prazer de empunhar o estranho objeto vindo do Oriente.
Hoje a cada esquina eles estão sendo oferecidos pelos camelôs nas ruas centrais de Campina Grande. Kafkiano assumido, hipoteticamente fico pensando na reação do caixeiro viajante Gregor Samsa ou mesmo de um Franz Kafka (1883-1924) ao ver o tão esquisita máquina fruto do avanço da ciência chinesa ou indonésia. Ou mesmo observar um Nabokov, autor de Lolita, amante das borboletas e colecionador de várias espécies ver uma dona de casa queimar as asinhas amarelas ou azuis de tão delicado inseto.
Mesmo sem ter a agilidade de um Guga, minha mãe foi pioneira neste novo esporte olímpico que já se consolida no Brasil: o tênis de inseto. Ela desistiu da raquete e repassou o mortal artefato para outra vizinha.
Inimiga da biodiversidade, a raquete elétrica espalha-se como uma peste de mosquito da dengue, voando baixo pelo centro, sucesso de vendas. Fatal para moscas, muriçocas, mariposas ou borboletas, a máquina da China é uma espécie de “cadeira elétrica” do vôo. Guerreiros, os maribondos se organizam na resistência.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Profetas no Calçadão

O Calçadão da Cardoso tem dessas. Às vezes passa dias e dias calmos, como se estivesse em coma. Desde o campeonato de futebol decidido em favor do Treze com uma fervorosa comemoração, semanas atrás, os dias pareciam calmos finalmente. E de repente, um grito, uma confusão ou uma discussão quebram o silêncio, agitam o coração da cidade, que se move nervosamente.
Uma moça paga por um consultório odontológico sai abordando os pedestres: “O orçamento e o documento do aparelho é grátis...”. Como um pregão ortodôntico, anunciava sorrisos planificados e perfeitos a preço de banana.
Do outro lado, um homem mostra sua nova invenção. Duas tábuas de passar de madeira que já estão equipadas com extensão elétrica. Outro vendia dois pequenos rádios antigos, um deles um Nord-Som com três faixas.
No meio do burburinho da feira de celulares, passa uma figura estranha, vestido completamente de verde e amarelo, parecendo anunciar a nova paixão para os dias juninos. Paradoxalmente, a camisa da seleção brasileira parece unir torcidas como a do Treze e Campinense.
Batuca na caixa, olha nos olhos, catimba malandramente o freguês:
- E aí professor, vai uma graxa?
- Hoje não, valeu!
Velhas bicicletas descoloridas cruzam o Calçadão de um lado ao outro. Um vendedor de sandálias fosforescentes da moda clama pelas freguesas, produto original com preço de pirata. Personagem popular com seu megafone, Gavião canta ópera, todos já estão acostumados com sua excêntrica presença.
Eis que surge, com barba branca de profeta, o padre e parlamentar Luíz Couto, guiado por um par de assessores. Senta numa das mesas do São Braz, toma um café sem açúcar. Rapidamente cercado, gentilmente fala com o eleitorado. Um homem faz um pedido, quer uma Constituição Federal nova. O assessor anota o endereço e aproveita para lembrar ao padre tem de sair dali, pois ele tem uma entrevista agendada numa tv:
- Luíz, tem um salão de barbeiro logo ali, vamos dar uma aparadinha na barba, pra sair legal na televisão.
Paciente, Couto sorri. Parece obstinado em sua resposta:
- Vou nãooo homem, o povo daqui gosta de barba!
Consumo
“Como as pessoas chegaram a esse ponto?” indaga um dos filhos de Maria de Lourdes Galdino, uma aposentada de 67 anos que morreu pisoteada por uma multidão enfurecida numa inauguração de uma loja de eletrônicos que prometia televisão de plasma ao preço R$300.
A tragédia que se abateu sobre os Galdino não atinge só aos membros da família, atinge também toda a sociedade.
A dura e incisiva pergunta do filho de Maria de Lourdes que indaga como as pessoas chegaram a esse ponto parece sinalizar o que o pensador Zygmunt Bauman afirma em seu “Vidas para consumo”, que as coisas valem mais do que as pessoas no estágio atual de “evolução” da humanidade. Ou mesmo lembra os escritos de Nestor García Canclini reunidos em “Consumidores e cidadãos- conflitos multiculturais da globalização” (Ed. da UFRJ, 1999), no qual ele lembra que a cidadania hoje parece ser exercida toscamente através do consumo.
Não é preciso ajuda de uma sociologia das multidões para saber que os aglomerados humanos são perigosos. Os primeiros cientistas sociais morriam de medo das multidões enfurecidas. Tratados foram escritos na vã tentativa de controlar as multidões. Manadas humanas selvagens, hordas primitivas em plena pós-modernidade, eles saem para o futebol ou para uma inauguração de uma megaestore dispostos a tudo.
Talvez seja esse o “poder” da humanidade. Sozinho, o ser humano é indefeso. Num coletivo, vira bicho incontrolável, pisoteia-se idosos e crianças por uma tevê de plasma. Paradoxalmente, no Rio de Janeiro, pela televisão, os filhos de dona Maria de Lourdes Galdino souberam de seu trágico fim. E também foi por esse oráculo digital das massas que as pessoas foram convocadas para consumir o que não lhes foi dado o direito de ter por apenas 300 dinheiros.
Com 300 dinheiros pós-modernos posso comprar na promoção o celular do momento, a televisão de plasma, o ar condicionado, a geladeira frost free, a câmera digital, a filmadora e a bicicleta de alumínio. Com 300 dinheiros posso ser um deles, posso passar por cima de tudo e de todos com meu carro utilitário quatro por quatro.
Os shoppings são igrejas pós-modernas? Megaestores são bizarras mesquitas do consumo? Atacadões são monstros a engolir a concorrência e a todos que neles entram? Qual o sentido do consumo contemporâneo? Qual a posição do consumo em nossas vidas? Essas são as muitas perguntas que me faço nesse momento. No entanto, a principal pergunta já foi feita pelo filho de dona Maria de Lourdes Galdino: “Como as pessoas chegaram a esse ponto?”


