quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Cordilheira em Borborema

Fazendo uma cara de que nada entendi, cinicamente disparo para o homem que vem passando pelo Calçadão da Cardoso Vieira: galego, esse pessoal é de onde?
- Sei lá, é bem do Cariri...
Vestidos mais que tipicamente, os integrantes do grupo nômade Purik, do Equador estão como centro das atenções no Calçadão. Um pequeno gerador movido a gasolina alimenta duas caixas de som. Um menino e dois homens cantam as músicas do CD Caminante de los Andes. As mulheres, duas senhoras baixinhas e uma jovem de cabelos negros em trança, sorridentes oferecem roupas,discos do grupo, bolsas, flautas de bambu entre outras coisas ao público ouvinte.
Na mesa do SãoBraz, estendida no Calçadão, Mateus e Celeste entretidos só conversam sobre psicanálise. Ao lado, não dou bola pra Lacan muito menos pra Freud, exerço meu direito ao devaneio e, de longe, observo a cena.
Ao lado do Supermercado Tropeiros e em frente aos dois chaveiros da Cardoso, o grupo parece estar nas alturas ao tocar Condor Pasa e continuar com Guantanamera. Biliu de Campina atravessa o espetáculo de camisa xadrez verde e encontra Baixinho do Pandeiro, que também acompanha a apresentação.
Ao redor do grupo param um rapaz e sua bicicleta de entregar água mineral, um outro homem que vende café. Os engraxates batucam suas caixas normalmente, como se nada pudesse interferir na rotina do Calçadão ou roubar a atenção de possíveis fregueses.
Senhora, senhora, repito a pergunta inicial a uma mulher de seus 50 anos que vem passando desatenta, talvez vinda da Maciel Pinheiro, com duas sacolas de plástico na mão:
- Sei não, eles devem ser indios apaches ou do paraguai. Mas vou me embora daqui porque essa música me dá sono.
Repito a pergunta a um jovem:
- Eles são coreanos...
Com um sorriso revestido de ouro nos dentes, vem chegando Biu do Violão, figura folclórica da cidade. Senta-se na mesa, no Café São Braz e vai logo fazendo sua interpretação:
- Sabe não...eles são cruzamento de peruano com paraguaio, mas não gosto da música deles não, prefiro Roberto Carlos. E essa coisa de cantar na rua em Campina quem inventou foi eu nos anos 70, quando ainda havia seresta por aqui. Os portugueses donos de restaurantes davam graças a Deus quando a gente chegava com um violão para eles venderem cana. Depois, eles ficaram ricos e venderam os negócios pros brasileiros. Os brasileiros ficaram ricos também e não deixaram mais a gente chegar com um violão nos restaurantes...
A apresentação termina. Algumas moedas no chapéu de palha e só. Decepcionados, recolhem as caixas de som e os microfones. A caixa com CDs fica aberta e um homem se aproxima:
- quantequié?
- Dez riais
-......
Um artista de rua, Moreno aproveita o vácuo do fim da apresentação do grupo Purik e monta seu jogo de apostas, na verdade um mini campo de futebol riscado num tapete velho com apenas uma trave e cinco canecos de alumínio empilhados:
- Bora, bora, acabou a música, mas brincadeira continua, é um real pago cinco pra quem derrubar os cinco caneco duma vez....o erro não ta na bola mas no seu pé!!
O equatoriano ainda vestido a caráter não resiste e vai apostar. Novo dono da cena popular, o moreno faz catimba com seu apito vermelho de juiz de futebol, tudo isso pra desconcentar o jogador estrangeiro. Mexe na trave para tirar de esquadro a mira do apostador. Os observadores quase não respiram porque é um pênalti contra o Brasil e o futuro da seleção está nos pés do adversário equatoriano.
O músico chuta....decepção nas núvens novamente. Vingativa, a torcida vibra contra. O cartão vermelho levantado pelo dono do jogo e a advertência:
-Tá fora, ta fora...próximo, próximo!!!

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Adorno e o trabalho docente


Corri para as estantes da biblioteca em busca do meu exemplar de “Educação e Emancipação”, coletânea de escritos do pensador Theodor W. Adorno (1903-1969), publicada pela Paz e Terra, em 1995. Demorou a achá-lo em meio ao amontoado caótico de livros que se tornou minha casa nesses anos, sim casa tomada, como em Cortázar. A folha de rosto marca muito bem com a minha assinatura e a data que estamos distantes daquela primeira leitura de outubro de 1997, quando fazia mestrado em Letras na UFPB e cursava a disciplina de Metodologia do Ensino Superior com o grande professor Luizito.

Pois bem, no livro Adorno se esforça para refletir sobre o sentido de se falar em educação, principalmente depois da barbárie que foi Auschwitz e o nazismo como um todo. O idealizador do conceito de indústria cultural também se preocupa com a relação entre filosofia e educação, televisão e formação, educação e emancipação etc. Mas eu procurava especificamente um trecho que me impressionou naquela primeira leitura dos escritos de teoria crítica sobre educação. Deixe-me folheá-lo, sim está ali em “Tabus acerca do magistério”, no qual Adorno nos mostra uma histórica ambivalência da figura do professor, que ora aparece como lacaio, preceptor, escravo, escriba, escrivão, monge etc. Daí, ele conclui que “a influência de antigas referências de professores como escravos” (p.102) é contraposta a uma “adoração mágica dispensada aos professores em alguns países, nos quais o magistério é vinculado à autoridade religiosa.

Confesso que tais preocupações sobre o trabalho docente e sobre as significações sociais e históricas do magistério me acometeram fortemente neste quase final de ano por conta de um silencioso mas turbulento processo que vem ocorrendo na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Ele tira o sono da grande maioria de professores universitários estaduais. Cerca de dois anos atrás, desde a aprovação pelo então governador Cássio Cunha Lima da autonomia financeira da instituição de ensino superior e da votação pela Assembléia Legislativa do chamado Plano de Cargos e Salários, ficou acertado que a progressão docente na carreira do magistério superior só se dará mediante a avaliação de desempenho do docente e que tal avaliação deve ser feita a partir de resolução própria, aprovada nos próprios fóruns da UEPB. O que ocorre é que, passados quase dois anos do Plano, a administração central da Universidade não encaminhou nenhuma proposta consistente de avaliação docente para a discussão em seus fóruns e agora chega com uma proposta de minuta para “ampla discussão e debate” faltando apenas dois meses para o fim do ano e para progressão dos professores por mérito de desempenho acadêmico. É um pacote natalino que na verdade vai dificultar a progressão de grande parte do quadro docente da UEPB.

O que no mínimo os professores da instituição se sentem é traídos por um grupo que se encastelou nas estruturas sindicais e burocráticas da instituição e agora chega com uma proposta que parece com o que os docentes mais reclamam de seus alunos: uma cópia apressada e distorcida das resoluções de universidades como a UFCG, UFMG entre outras. E o pior, em muitos casos, ser diretor de centro, sindicalista, coordenador ou mesmo reitor favorece e muito o professor na hora da avaliação. Há uma clara penalização do ensino, do professor que dá aula, daquele que está todo dia ali, como o repetitivo como o bico da ave a comer as entranhas de Prometeu acorrentado. O ensino de graduação e a orientação de monografias de conclusão de curso na tabela de pontos a serem somados ao longo desses dois anos para se merecer a mudança de nível são vergonhosamente sub-valorizados.

Discutir tais questões não significa vincular a carreira docente ou os destinos da universidade às eleições futuras ou mesquinhas disputas políticas partidárias ou sindicais. Trata-se de defender os direitos dos professores, essas figuras ambíguas que transitam entre o estigma da antiga escravidão e a liberdade de ensino em sala de aula. Discutir tais questões também não significa ser contra a avaliação do trabalho docente, pelo contrário, temos de avaliar sim, mas justamente. Não sou contra as avaliações, mas acredito que elas devem ser encaradas não como vingança política, vendeta ou instrumento punitivo para os sujeitos rebeldes ou críticos.

Reduzir a intelectualidade ao valor de troca como diz Adorno em “Educação e emancipação” faz com que o professor seja encarado de forma mercantil ou mecânica. É o que ocorre hoje, em plena era dos técnicos cabeça de planilha, no qual os professores são “avaliados” apenas por métodos quase que exclusivamente quantitativos, num esdrúxulo sistema de trabalho misto de taylorismo e fordismo, em plena época pós-toyotista, na qual os diretos e garantias dos indivíduos e dos grupos são brutalmente submetidos na tirania do mercado em crise. Retoma-se assim a condição primeira do professor como soldado cativo de guerra. Guerra esta entre trabalho e capital, entre esforço para se construir intelectualmente e o de confortavelmente exercer quase em toda a “carreira” em postos de poder na burocracia estatal universitária ou sindical.

Neste sentido, vale refletir, discutir e questionar tal tentativa apressada de avaliação docente...decentemente!

Carlos Azevedo é professor-doutor do Curso de Comunicação Social da UEPB.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

“Catolé do Norte”, praça de guerra...onde Veja berra



- Papai, olha aquele homem ali, é o Chico César?

-É filho, é ele mesmo...

- O que ele fazendo aqui no Shopping Sul? Ele é de verdade?

- Filho, ele é de verdade sim, é mesmo o Chico César.

- E o que ele vai fazer lá em cima, Papai?!

- O mesmo que a gente fez: almoçar fora, porque hoje é sábado...

O diálogo entre pai e filho se encerra ao cruzarmos com o cantor de Catolé do Rocha que vai subindo a rampa. Ele escuta parte da conversa, apressado, sorri para os fãs.

Como sempre, não acredito em coincidências, depois explico o porquê.

Ao chegarmos a casa, abro a caixa de correio em busca da revista Veja ou do jornal de domingo, que eles teimam em nos antecipar nos tediosos dias de sábado. Ela está lá sim, bem no fundo, enrolada como uma cobra de papel colorido.

Aos lulistas de plantão ou esquerdistas asmáticos, daqueles que desmaiam ao ouvir qualquer referência à direita, vou logo explicando que não assinei a revista, apesar de recebê-la com regularidade. Como é que é? Eu era um dos milhares consumidores da Revista da Semana, do Grupo Abril, publicação bem legal, num formato econômico, que tinha tudo pra dar certo. Sem mais nem menos a Abril acabou com a magra revista e nos enviou uma correspondência avisando que não teríamos nenhum prejuízo, seríamos agora assinantes de Veja. Como ensino a disciplina Redação em Revista no Curso de Comunicação Social da UEPB, em Campina Grande, aproveitei a promoção apenas pra ter mais assunto nas minhas aulas.

Agora vamos às coincidências, pois bem, achava que tinha encontrado o Chico César por acaso...

Estava folheando a revista e vendo o desafio de se fazer uma publicação semanal no Brasil, lugar de escândalos quase diários. Pois bem, para dar uma arejada no leitor ou para aproveitar a queda nos preços das passagens aéreas por conta da tal da gripe suína, escalaram a repórter Thaís Oyama para entrar no que Veja considera o “país mais fechado e estranho do mundo”: Coreia do Norte.

Lembrei que coisa de dez anos atrás, em Campina Grande, mais precisamente no auditório da Associação Comercial, cedido gentilmente ao Curso de Comunicação. Fui um dos incautos a compor a platéia formada quase que totalmente de estudantes de jornalismo ávidos a escutar os conselhos da então “notável” entrevistadora de paginas amarelas da principal revista do grupo Abril, Thaís Oyama

O burburinho dos estudantes só vai ser aplacado quando a professora Socorro Palitó vai ao microfone, diz alô, alô, alô, som... boa noite! Convida ao palco principal a repórter de Veja, que vai dar uma palestra sobre a entrevista jornalística. Do meio da estudantada surge uma moça de descendência japonesa, trajando um vestidinho básico preto. Contratada dois anos antes para compor a equipe da Abril, ela passeia pelas recomendações básicas para uma boa entrevista, fala da importância dos equipamentos, das pilhas do gravador, da fita etc. Os estudantes, maravilhados com as informações óbvias, não escondem o delírio de estarem vendo alguém de Veja, veja que subdesenvolvimento regional ainda sofríamos. O meu bom humor de sempre é substituído por uma cara feia, daquelas de quem ouviu e não gostou. Fiquei pensando nas minhas aulas de teóricas sobre reportagem, todas inúteis frente aos olhos da jornalista de SP.

Anos depois, já em 2008, Thaís Oyama continua suas dicas no livro “A arte de entrevistar bem”, publicado pela Editora Contexto (de São Paulo) e consumido e fotocopiado aos montes pelos estudantes de jornalismo de todo país... São as mesmas informações, me decepciono ao comprar o livrinho, lá na Livraria Almeida. E agora, na orelha do manual, ela se diz especialista em palestras sobre técnicas de entrevistas...

Mas o que tem a ver os olhar de Thaís Oyama na “reportagem especial” de doze páginas de Veja sobre a Coréia do Norte com o nosso Chico César de Catolé do Rocha? Pois bem, ao escrever sobre o filho do líder comunista norte-coreano Kim Jong-II, Thaís Oyama nos lança o seguinte comentário: “Onde está Kim Jong-II, o filho? Não demora para o visitante entender que o tirano norte-coreano, de cabelos espetados como os do cantor Chico César, é, entre os Kims, o menor. O `Querido Líder´, como é chamado no país, é pouco mais do que o representante de seu pai na terra (...)” (p. 107-8) ou mais adiante ela completa sua comparação com a frase: “O Chico César coreano não é exatamente um gênio da política e da administração- sua opção preferencial é pelo investimento em armas nucleares.” (p.108).

“Catolé do Rocha/Praça de Guerra/ Catolé do Rocha/ onde o homem bode berra.” Caro professor e poeta Amador Ribeiro Neto será que finalmente entendi a letra de “Beradêro”, cantada a capela, que ecoa desde o distante primeiro disco do paraibano Chico César em “Aos vivos” de 1995?! Ou a repórter de Veja, enviada aos confins da terra, a um “país fechado e estranho”, errou a mão (ou melhor, no cabelo) na comparação superficial e sem sentido entre o ditador norte-coreano com o cantor paraibano? Acho que sim. Entre o olho vesgo para a direita de Veja e o olhar preconceituoso com os cabelos de Chico César, Oyama esqueceu de se reconhecer num país de milhares de pessoas de olhinhos simpáticos, esqueceu das diferenças entre oriente e ocidente. Perdeu uma grande chance. E olha que o Chico César já tinha cantado tal questão num disco chamado paradoxalmente de “Respeitem meus cabelos, brancos”, lançado em 2002, do qual vale transcrever parte da letra: “Respeitem meus cabelos, brancos/ Chegou a hora de falar, vamos ser francos/ Pois quando o preto fala, o branco cala ou deixa a sala com veludo nos tamancos/ Cabelo veio da África, junto com meus santos (....) Batuques, toques, mandingas, danças, tranças, cantos/ Respeitem meus cabelos brancos/ Se eu quero pixaim, deixa!/ Se eu quero enrolar, deixa!/ Se eu quero colorir, deixa!/ Se eu quero assanhar, deixa!/ Deixa, deixa a madeixa balançar (...) /fui claro??”.

Não podia terminar sem lembrar ao leitor que antes de despontar no cenário musical brasileiro contemporâneo como um dos grandes compositores do país, Chico César trabalhou duro como revisor, na Editora Abril, lá em São Paulo, nesse “lugar fechado e estranho” dum país aberto chamado Brasil

Com certeza, ele não deixaria passar uma comparação sem nexo desse tipo!

domingo, 2 de agosto de 2009

O MEZ DA GRIPE (Ou: variações de um vírus para jornal, piano, TV, internet e orquestra AH1N1)


“Atraídos como moscas ingênuas eles nem suspeitavam da silenciosa e invisível contaminação. Consumidores oportunistas iludem-se com as mensagens de até 80% de desconto em todos os itens. E o vírus da grippe circulava livremente pelos corredores climatizados do Leviatã Shopping. Construído como uma chaga que cresce dia após dia nas margens dum rio morto, o centro comercial vai ser vitimado paradoxalmente por um simples vírus.

Agosto, mês depois, o colossal Leviatã está quase vazio. Apenas alguns sobreviventes funcionários armados da segurança, usando máscara tal como bandidos, guardam o local. Como se todo aquele sonho tivesse apodrecido junto ao rio. As pessoas escondem-se em suas casas, com estoque limitado de comida, esperando boas novas ou Godot em frente da fogueira eletrônica da televisão.”

(Corte na carne do vídeo. Imagem chuviscada na TELA...)

(... ZZZZZZZ. Sem sinais de transmissão digital.)

Desperto num zapping. Na rede, um livro de asas abertas parece pousado em minhas mãos como um pássaro agourento.

Traço um cenário sinistro assim num pesadelo inspirado na leitura da novela “O mez da grippe”, de Valêncio Xavier, publicado originalmente em Curitiba, pela Fundação Cultural, Casa Romário Martins, em 1981. Comprei o moribundo exemplar num sebo, anos atrás. A leitura sempre adiada parecia esperar o momento certo. Encontrei-o emparedado, como num conto de Poe, entre dois pesados livros de Dostoiévski, na desordem de minha bibliotecaverna.

O pânico com a nova gripe espalha-se nos meios de comunicação como um vírus. A doença parece alastrar-se como um boato. As autoridades em pânico aconselham calma....tudo está tão vazio.

“Um homem eu caminho sozinho nesta cidade sem gente e as gentes estão nas casas” (p.9). O livro de Valêncio Xavier é também um passeio, um mórbido passeio composto de recortes de jornais da época, do início do século XX, quando a grippe espanhola vitimou milhares de pessoas pelo mundo.

Num desvio, largo o livrinho de 75 páginas e me dirijo ao gordo Almanaque Abril. Um professor meu, Giovanni, muito tempo atrás, me disse que só conseguiu passar no vestibular por conta dele. E assim, sempre tenho um aqui em casa, como um remédio necessário e amargo. Logo minhas aflições são recompensadas com a informação precisa e curta. Diz que a Espanhola foi a maior pandemia de gripe que se tem registro e ocorreu nos anos de 1918 e 1919, com uma letalidade de 2%. E imagina-se que o vírus tenha surgido nos EUA e se espalhado pelo mundo, de carona, por conta da movimentação de tropas durante a I Grande Guerra.

Continuamente a mesma farsa se repete na História. Comerciais, clipes, guerras, terroristas, prisões como a de Guantánamo, porcos e vírus, tudo misturado, argamassado. Militarismos & sanitarismos impotentes no descontrole da situação. Cenário de uma guerra contra o terror invisível desenha-se. Paradoxalmente, acho que a imagem que mais corresponde ao momento de hoje pode ser achada na capa do disco “Animals” do Pink Floyd, mais precisamente nas músicas “Pigs on the Wing” e “Pigs on the Wing 2”, de 1977. Sim, concretamente os porcos estão a flutuar. E o ar se tornou rarefeito, pesado, emporcalhado, tal como no Senado. No entanto, como Marshall Bermann pinçou cirurgicamente da lavra do barbudo Marx: tudo que é sólido se desmancha no ar. E a levitação é uma arte das mais pesadas. Emporcalhamos tudo, big man, pig man! Cachorros cínicos reclamamos injustamente da natureza. É bom também lembrar que na Revolução dos Bichos, os porcos estão estrategicamente sentados no poder. O discurso sanitário e moralista gosma em suas bocas. Urge uma nova e marxista-leninista-trotskista-maoísta permanentemente mutante & ambulante revolta da vacina, dessa vez liderada por um vírus emporcalhado.

Influenza num país de múltiplas influências, conflitos e confluências. Influenza parece ser eterna e não ter remédio para ela devido à sua própria mutação, modificação. Vasta combinação e recombinação de genes, o vírus é mais rápido que a ciência e a sociedade de consumo. Ao invisivelmente sentenciar a limitação dos saberes do homem, a chamada Gripe Suína nos devolve a condição bestial de porcos, porcos com asas. Gripe eterna que atravessa a história num único espirro milenar. Metáfora viva da globalização, ela atinge todos, num único erótico sopro de prazer e morte. Espalha o terror em ambientes fechados e denuncia a sociedade que se fecha em si mesma. Provoca o vazio e nele se desenvolve. Entre o Estado e o Mercado, num entrelugar, o vírus habita os corpos e devora as mentes.

Mas retornemos ao livrinho-novella de Valêncio Xavier. Bricolagem hábil de textos dos mais diversos gêneros (notícias, anúncios de jornais, relatórios), “O mez da grippe” também me faz lembrar a pioneira arqueologia moderna dum Gilberto Freyre ao escacar nos jornais pernambucanos recortes que construam um retrato da representação da escravidão num outro livrinho belíssimo, que também vale ser lido. Ou mesmo as aulas pós-modernas dum tropicalista Jommard Muniz de Brito ou dum antenado professor como Cláudio Paiva, todos os dois com seus abismos e provocações, num mítico DAC (Departamento de Artes e Comunicação) da UFPB, tempos atrás. O ato de brincar com os recortes nos lembra que a linguagem também é um jogo de múltiplas combinações.

Em “O mez da grippe”, no prefácio de 1981, escrito Francisco Battega Netto vê-se na “escrita” pós-moderna de Xavier um livro-colagem que traz dentro de si as possibilidades de sucessivas montagens e desmontagens do discurso, tal como o vírus da gripe. Ao recortar os diversos textos e imagens de uma época ao mesmo tempo distante e próxima, Valêncio empunha uma tesoura que dá nova vida (sentido) a fragmentos que combinados de forma inovadora vão alimentar o próprio corpo/texto da literatura, da novela em si.

Um livro desesperadoramente atual mesmo 28 anos depois de publicado “O mez da grippe” repete-se como uma fantasmagoria pós-moderna na televisão e nos jornais brasileiros. Quem se habilita a fazer uma nova montagem sobre esta pandemia no suíno mês de agosto/desgosto?

Ou como diz meu filho Ícaro nos seus recém completados sete anos de sabedoria, ao ser indagado sobre o assunto: “Papai, a literatura é uma planta carnívora!”.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Borboletas da estação




Coloridas, as saias nem chegam a tocar o chão. Agitadamente, nervosamente, esvoaçam pelas ruas da cidade e param logo ali, no Calçadão da Cardoso Vieira, centro nervoso de Campina Grande, reduto masculino de aposentados, vendedores, engraxates e pedintes.

É o estranho encontro entre o nomadismo feminino e o sedentarismo local.

Logo cedo, não sei o porquê, um locutor do rádio disse pra ter cuidado com elas. Desconfiados, os homens fazem o alarido. E as ciganas, como numa guerra, vão ganhando posições. Encurraladas, deslocam-se e, ganham a parede da farmácia. Catam os pedestres pela cara, seguram o freguês pela mão e anunciam o poder de ler e revelar o futuro.

Vindas da Bahia chamam a atenção dos que passam e dos que cotidianamente vivenciam as praças da cidade. De todas as idades e cores, tal como borboletas, voam em bandos.

Defendem uns trocados com um poder que dizem ter. Vivem o presente através de um futuro imaginário lido na palma da mão. Percorrem as linhas como ruas de misterioso sentido. Obscuros, quebrados, os sulcos são interpretados, revistos, observados com um olhar ancestral.
Lê-se ansiedade na face da freguesa. Constrangida, mão aberta como um mapa, ela quer saber se vai dar certo o relacionamento com ele. Olho no olho, a cigana vai transformando em alívio o rosto da moça e está prestes a ganhar uma arara vermelha, dez reais. Experiente, com o pássaro na mão, a cigana sorri com o canto da boca, mostra sem querer um dente de ouro.

Preocupados com o futuro do futebol ou da política em 2010, remoendo a eterna rivalidade entre galo e raposa, os homens parecem não acreditar nas palavras das ciganas. Ocupam as calçadas e os bancos, tomam um pingado em Henrique´s lanches ou um café forte no São Braz. Nem chegam perto, muito embora lancem olhares hostis.

O calçadão e sua miríade de seres em movimento. Uma imensa mão aberta a acolher pedestres apressados, crianças de rua, ciganas, velhos, engraxates e pedintes.


quarta-feira, 6 de maio de 2009

O falso profeta


O falso profeta está morto. E sobre ele, como um punhado de terra suja, também apodrecem as críticas nem sempre justas. É certo que algumas de suas previsões nem sempre se cumpriram, mas podemos chegar à conclusão que ele estava certo em parte e que algumas de suas descobertas ou visões estavam bem fundamentadas. Mesmo assim, o falso profeta agora esquecido, descansa sem paz sobre seu próprio esquecimento.
Vítima dos modismos culturais que afetam a pretensiosa elite intelectual brasileira, o falso profeta da era eletrônica está sepulto no ciberespaço da vã memória e do esquecimento. Soterrado pelo peso da informação instantânea, pela quantidade de dados estocada não sei pra quê. Ele que era uma verdadeira mania dos tempos modernos, era discutido em seminários, salas, colóquios, cozinhas, eventos de especialistas, mesas de botequim, escritórios etc. Hoje habita o espaço nenhum...
Escafedeu-se, desmaterializou-se conforme suas próprias previsões.
Ex-gênio, desmascarado, farsante, cínico, copiador de idéias alheias. Filho bastardo da era da informação e da comunicação, hoje a simples pronuncia de seu nome junto aos nobres e renomados doutores professores de jornalismo causa arrepios e até crises universitárias de fricote. Os novos estudantes passarão quatro anos nas salas da universidade e sairão de lá sem ouvir a pronuncia de seu esquecido nome.
Alguns dão graças a Deus e pedem que ele descanse em paz num abrigo imaginário de velhinhos atrevidos que ousaram refletir sobre a comunicação e as culturas contemporâneas. Outros até reconhecem seu relativo valor, mas preferem não citar seu nome, para não se comprometerem, já que ele está fora de moda. Trata-se de um coitado, de um alegre bufão, de um arlequim dantesco que resolveu com uma simples analogia pensar a sociedade a partir de um circuito elétrico, como se aquela placa verde fosse toda a cidade ou o cérebro, com suas abstratas e incandescentes ruas do pensamento. E, logo ele que achava que o mundo tinha virado uma aldeia global, nem é lembrado nas minhas modestas aulas no curso de Comunicação, logo ali no bairro São José, em Campina Grande.
Colecionador de inutilidades, de frases feitas, de trocadilhos bestas. Acreditava que os meios de comunicação eram extensões do homem. E olha que o infeliz achava que tais meios eram prolongamentos do sistema nervoso. Basbaque e malandro ao mesmo tempo, enganava todo mundo dizendo que existiam meios quentes e frios. Ingênuo, achava que a palavra escrita iria desaparecer na era da TV, da imagem de cinema nas telas de cristal líquido. E logo ele, que dizia que a galáxia de Gutenberg estava sepultada, seu necrológio saiu por ironia num jornal dos anos 80. E ninguém lamentou, porque já naquela época ele já estava fora.
Logo com você, professor de literatura inglesa no Canadá, doutor honoris causa em várias universidades, nada disso importa. Você está esquecido cara. Já foi moda. E de modo algum vai voltar a não ser como um excêntrico e inconveniente fantasma. Um espertinho francês, Pierre não sei das quantas já copiou suas idéias sem sequer citar teu nome. E, por sinal, vive viajando pelo mundo posando de gênio. É isso aí bicho, é o ritmo da universidade, não é?

domingo, 26 de abril de 2009

Esparrela


*Carlos Azevedo
Com uma armadilha imaginária, o teatrólogo Fernando Teixeira capturou um imenso urubu. Conviveu com ele, observou seus hábitos e instintos. E, dizem que com a habilidade de ator com mais de 40 anos de palco incorporou a personagem chegando a voar e tudo.
Egoísta, escondeu o animal dentro de si. E depois de chegar até a decifrar seus pensamentos, silenciosamente foi mostrando aos amigos mais chegados o resultado de tal convivência. Nas primeiras noites da segunda quinzena de Abril, foi que houve a primeira apresentação do urubu na cena paraibana. Não foi num palco tão tradicional como o teatro Santa Roza ou num grande espaço tal como Paulo Pontes. Escondido numa das salas do antigo grupo Thomas Mindelo, logo ali nas quase-ruínas do centro histórico de João Pessoa, foi montada uma nova armadilha, dessa vez para o público. Só assim as pessoas puderam ver maravilhadas o resultado da peça “Esparrela”, na qual o teatrólogo interpreta ao mesmo tempo o homem Manoel e o urubu Arquimedes, essa ave genial que abre as suas longas asas sobre a existência humana e animal como um todo. Pasmem, matematicamente Arquimedes nos ensina a voar.
A cena de “Esparrela” é minimalista. Um espetáculo pocket, mas com uma densidade existencial muito grande. A platéia deve ser sempre pequena (umas 30 pessoas) e o ator tranquilamente consegue olhar no olho de cada um. Sem maquiagem, o rosto do ator Fernando Teixeira vira uma máscara de carne, máscara esta devorável pela fome do urubu Arquimedes.
Operando uma síntese corporal entre bicho e a pessoa, Teixeira valoriza e ao mesmo tempo denuncia a condição animal dos homens. Preso ao calcanhar de Manoel, o urubu Arquimedes é sua perdição e sua libertação. A fome de existência permeia todo o espetáculo, fome esta que devora a todos.
O corpo do ator em cada gesto, em cada passo, parece obstinado a cumprir a sina de todos e fazer girar a roda da vida-morte-vida. É uma travessia corporal na qual Teixeira transporta em seu corpo várias vozes numa polifonia infernal que irradia todo o peso existencial do espetáculo.
Ao ver esta síntese entre animal e homem me veio, sem que o motivo eu saiba a imagem do antigo Lixão do Róger visto da antiga Casa da Pólvora. O céu ardia em cores que se transformavam a cada minuto. A fumaça das fogueiras dos montes de lixo e os urubus circulando a paisagem. Entre a contemplação e o espasmo, entre a vida e a morte, “Esparrela” é um dos espetáculos mais importantes da cena paraibana dos últimos tempos.